Feliz Aniversário

Eu te disse que hoje é o meu aniversário?

Não, é claro que não, se eu mesmo tentava esquecer.

Mas, inevitavelmente, lembrei-me. Tentei dormir cedo na noite anterior, mas logo percebi que a insônia me pegara. As horas seriam longas e cheias de pensamentos sombrios. Em algum momento consultei o relógio para saber quanto tempo mais precisaria aguentar ali deitado.

00h06min.

Já era outro dia. Era meu aniversário.

Uma imagem antiga surgiu, centenas de vezes relembrada: o dia em que completei oito anos. Como acordei feliz naquela manhã. Sorridente corri para minha gangorra sob os primeiros raios acolhedores do sol e pensei em como estava crescido. Oito anos, nossa, parecia um número enorme, imponente e eu estava orgulhoso. Analisei tudo o que tinha feito na vida e o que ainda faria. Meus sonhos estavam um ano mais próximos agora.

Alguém já havia me dito que eu poderia alcançar tudo o que eu quisesse. É saudável dizer isso para a as crianças, mas será que existe um momento certo para contar a elas que é mentira? Ou será que é melhor deixa-las descobrir sozinhas?

  É verdade, não é? Nem sempre nossos sonhos se tornam reais, por mais empenhados que possamos ser.

E é difícil aceitar a derrota; não sou um bom perdedor. Como posso olhar para o meu eu de oito anos e dizer: Ei, sabe tudo isso que você sonha? Não vai acontecer, nós perdemos.

Tudo bem, esqueça o que não alcançou, busque outras coisas. Tentei fazer isso, mas pensar em outros sonhos me enche de angústia. É melhor não ter sonho nenhum, viva um dia de cada vez e deixe a correnteza levar você. Não importa o que aconteça, não olhe para o amanhã, não crie, não planeje, isso traz decepção. Tornei-me um especialista neste truque, durante meses vivi um único e repetitivo dia, é a minha forma de enfrentar o insuportável fardo de existir.

Mas então vem o aniversário e estraga tudo. Ele me lembra que o tempo está passando e que eu ainda estou parado no mesmo lugar tentando enganar as horas reiniciando o relógio a cada manhã. O pior de tudo é que os sonhos ainda estão ali e me trazem vislumbres de uma felicidade nunca alcançada. Vejo-me caído no meio de uma escada olhando para o topo inalcançável onde as pessoas riem e conversam.

Será que alguém esticou a perna para me fazer tropeçar ou eu caí sozinho? Não me lembro. Sinto um grande desejo de tentar continuar subindo. Ocorreu-me a ideia de que talvez eu não chegue ao topo, mas o degrau seguinte já pode ser um lugar melhor.

Acabei dormindo. Acordei na hora habitual e tive uma grande surpresa ao abrir a janela: um arco-íris marcava o céu cinzento, tão bonito, um espetáculo. Há quantos anos eu não via um arco-íris? Não sei o motivo, mas aquela visão trouxe-me muitas sensações boas quase como seu eu pudesse realmente encontrar um pote de ouro em seu fim.

Era um presente da natureza para mim. Sumiu depressa, mas os poucos minutos em que se exibiu foram o suficiente para mostrar-me que aquele dia não seria como os outros.

 

                                                      J.C. Gonçalves

 

Um dos Cem Melhores Marketings de Todos os Tempos

Um dos Cem Melhores Marketings de Todos os Tempos

Hoje vou falar um pouco sobre “ A Saga do Mago”. Já adianto que foi um livro sobre o qual eu tinha grande expectativa, mas transformou-se em decepção.

A obra de Raymond E. Feist ganhou certa popularidade no Brasil graças a um trabalho editorial e divulgação muito bem feitos. Lindas capas, um belo mapa para acompanhar e a propaganda orgulhosamente exibida: um dos cem melhores livros de todos os tempos, BBC.

A capa lhe convida a conhecer a obra-prima da fantasia épica, mas bastam poucas páginas de leitura para perceber que não há nada de épico ali. A história é rasa e os personagens são completamente planos, nada convence muito no mundo de Midkemia.

Nos primeiros capítulos Feist descreve uma aventura subterrânea que parece um esboço muito mal feito das travessias das Minas de Moria do Livro O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien.  Não tenho nada contra o desejo do autor de escrever algo parecido, mas este é o momento em que a comparação entre os dois livros se torna inevitável e descobrimos que a qualidade é infinitamente distinta. Em seguida o livro ganha seu próprio rumo e sempre existe a expectativa de que tudo melhore.

Mas não. A sensação geral que a obra me passou é que o autor juntou várias partes de histórias diferentes. Os personagens e, principalmente, os cenários não conseguem se juntar para formar um mundo sólido.

A passagem do tempo também incomoda bastante, meses e anos passam com um virar de páginas fazendo a história mergulhar em uma monotonia entediante. Este mal atingiu o personagem principal: o jovem Pug é o nosso aprendiz de Mago e, por alguns momentos, a possibilidade de ele passar por um longo treinamento anima a história, mas então ele é sequestrado e reaparece no livro seguinte anos depois já adulto e transformado em um grande Mago.

A escrita de Raymond não ajuda, seu texto é óbvio e completamente sem inspiração, nem mesmo quando havia batalhas ele conseguia fazer com que eu realmente me interessasse.

“Mago; Aprendiz” foi o pior livro que já li, pelo menos até que eu lesse “Mago; Mestre”. Como nada melhorou no segundo livro, eu finalmente desisti da série.

E você? Já leu? Espero que tenha uma experiência mais satisfatória para contar.

O Adormecer da Humanidade

O Adormecer da Humanidade

A mesa no fundo do bar ficava perto da janela e ligeiramente afastada das outras. Era um lugar aconchegante para beber sem ser incomodado ou ter uma conversa particular. Eu não vi quando o meu convidado entrou e quase não o reconheci quando ele parou diante de mim. Era um homem sorridente que transmitia confiança e uma felicidade sincera. Ele fora meu aluno. Era mais uma mente brilhante que se perdera na loucura do mundo.

– Artur, você está ótimo. Suponho que tenha superado as angústias do passado.

Ele apertou minha mão e sentou-se.

– Professor, desde que me casei com Késsia posso dizer que tenho uma vida perfeita.

Késsia fora uma paixão juvenil não correspondida que fizera meu brilhante aluno mergulhar em um deplorável estado de solidão e baixa autoestima.

– Até onde eu sei Késsia Silva se casou com Leandro Souza há dois anos e eles têm um filho.

– Isto é verdade aqui e agora, mas pode não ser em outro lugar ou no futuro.

– O que quer dizer?

– Tudo o que sei é que há mais de uma realidade, por isso não duvide quando eu digo que Késsia é minha esposa.

– Artur, será que você pode ser um pouco mais claro?

– Nosso casamento aconteceu bem aqui. – Com o dedo indicador ele tocou a cabeça.

– Você imaginou se casar com ela? – eu perguntei temendo a resposta.

– Não, eu sonhei.

– Sonhar e imaginar não seriam, digamos, a mesma coisa?

– Claro que não. O sonho é a realização do que foi imaginado. É como tirar um projeto do papel, entende?

– Não entendo. Você quer dizer que sonhou com Késsia e, por isso está feliz? Pensei que já tivesse esquecido esta garota.

– É quase isso, mas acho que o verbo sonhar não expressa exatamente o que aconteceu. Tudo foi real.

– Você acha que teve uma premonição? Késsia irá se separar do marido e se casar com você?

– Esta é uma possibilidade. Mas não aconteceu exatamente desta forma. Não foi como ver o futuro, foi como viajar até lá e viver o futuro.

Eu o olhei longamente esperando que ele explodisse em uma gargalhada mostrando que tudo era brincadeira, porém, Artur continuou a divagar:

– Estamos pretendendo fazer uma viagem, você tem alguma sugestão?

– Você e Késsia? Quando?

– Assim que eu adormecer.

– Mas como pode saber que irá fazer a sua viagem no tempo?

– Não diga viagem no tempo com este tom zombeteiro. E sim, eu sei onde irei estar quando fechar os olhos. Você já ouviu falar em sonhos lúcidos? Descobri uma maneira bem eficaz de provocá-los.

– Você provoca sonhos lúcidos para viver ao lado de uma mulher que não te quis? Não faça isso com você rapaz, é doentio.

– Eu estive doente, mas agora estou ótimo. No início também tive dificuldades para aceitar estas viagens ao futuro, mas descobri o quanto é maravilhoso.

– Veja bem, isto não pode ser o futuro, somos nós que escolhemos o roteiro dos sonhos lúcidos.

– Sim, mas quem sabe esta seja a forma de escrever o futuro, talvez os anos que estão por vir sejam um livro em branco que não precisamos esperar para preencher.

– Ninguém escreve o futuro dormindo.

– Quem sabe então seja um universo paralelo em que podemos criar nossa própria história?

Ele falava com inacreditável seriedade e convicção. O que Késsia pensaria se soubesse que os sentimentos que Artur nutria por ela o levaram à loucura? Eu quis acreditar uma última vez que ele zombava de mim, por isso, falei:

– O que as garotas dizem quando você as convida para sair e começa a falar sobre viagens ao futuro e universos paralelos?

– Eu não convido nenhuma garota para sair, sou um homem casado.

Eu me irritei.

– Pelo amor de Deus, pare com isso. Você está louco, precisa de um psiquiatra.

– Viver em outra realidade não me torna louco.

– Mas não existe outra realidade, olhe ao seu redor, esta é a única realidade que existe.

Artur olhou para os quatro cantos do bar de forma debochada.

– E o que torna isso real?

Eu dei alguns socos suaves na mesa.

– Olhe como é sólido, você pode tocar, sentir a textura, o cheiro. Se você vier correndo e tropeçar, pode muito bem rachar a cabeça na quina desta mesa. Mas isso não é possível nos sonhos, ou é?

– Tirando a parte de rachar a cabeça, tudo é possível. O cérebro reage ao mundo em que vivemos fazendo com que sintamos raiva, amor, ansiedade, medo. Se você se concentrar nas imagens certas enquanto está dormindo o cérebro reagirá da mesma forma, é ele que torna tudo real.

– Como você pode chamar de realidade as imagens escuras e borradas de um sonho?

– Por acaso é a luz que torna tudo real? Então o que me diz de um cego? Este mundo não é real par ele?

Não encontrei um bom argumento para rebater aquela nova face da loucura.

– Não é a visão…

– Exatamente, são as emoções. O prazer que sinto ao beijar Késsia dormindo não seria maior se fizesse isso acordado?

– Como você sabe se nunca a beijou de verdade?

– Realmente eu nunca a beijei nesta realidade, mas agora sei que isto seria decepcionante. Por acaso já lhe ocorreu de você imaginar algo que está para acontecer e, quando realmente acontece, você percebe que em pensamento era bem melhor? E olhe que estou falando apenas de um pensamento, se você tivesse sonhado a decepção seria ainda maior. Tudo o que este mundo tem para nos oferecer é apenas um esboço do que realmente queremos.

– Então insinua que se pudesse se casar com Késsia aqui, agora, você ainda escolheria esta outra Késsia do futuro ou de outro universo?

– É claro.

– Você zomba da criação. Já pensou que tudo o que existe faz parte da imaginação de Deus? Mesmo assim você prefere se fechar em sua própria cabeça?

– Se você acha que vivemos na imaginação de Deus, então deve pensar que tudo aqui não é real.

– Eu não quis dizer isso. Deus imaginou e depois tornou real.

– E nós podemos fazer o mesmo em nossos sonhos.

– Não podemos. – Eu estava quase gritando. – Quando temos um sonho bom e acordamos de repente nos sentimos decepcionados por não ser real.

– Engano seu. Sentimo-nos tristes e decepcionados por acordar, então o que fazemos? Tentamos dormir outra vez para continuar sonhando. As pessoas querem continuar dormindo por que sabe que será melhor do que isso que você chama de realidade. Acredite meu amigo, dormindo você conseguirá se realizar e ser mais feliz do que seria aqui.

– Isso me parece apenas uma maneira de fugir da realidade, dos problemas, da vida. Pessoas fracas fariam isso.

Pensei que o insulto o faria refletir um pouco mais, mas Artur apenas sorriu sem se importar.

– Por que pensa que a vida deve ser difícil, cheia de dor e sofrimento? Acha que as pessoas querem isso? Por que viver assim se a felicidade nos espera em um mundo que se abre em nossa mente?

– Em longo prazo essa vida perfeita deve ficar bem chata. Precisamos enfrentar privações.

– Quem poderia se aborrecer em um mundo controlado por sua própria vontade. Se você quiser dificuldades pode inserir algumas de vez em quando.

Ele tinha respostas para tudo. Era admirável seu empenho em defender sua realidade alternativa.

– Mas você não pode negar que irá se sentir sozinho com o tempo. Afinal, você é o único habitante da sua realidade. Todas as pessoas inseridas neste futuro são apenas sombras suas. Sua amada Késsia, por exemplo, uma de suas características mais marcantes é sua personalidade forte. Mas em um mundo onde você é Deus ela não tem personalidade; a pobre moça diz o que você quer, faz o que você quer e sorri quando você deseja. Aposto que ela não consegue escolher nem as próprias roupas, ou talvez você prefira vê-la caminhando nua. O fato é que ela não é uma mulher, não é sua esposa, é apenas uma marionete.

Sua demora em retrucar me fez pensar que eu o havia acertado, mas ele estava apenas tomando fôlego para continuar com suas teorias absurdas.

– Isso não é verdade. Quantas vezes em nossos sonhos nos deparamos com pessoas que nunca vimos e as ouvimos dizer coisas que nunca passaram por nossa cabeça. Os sonhos lúcidos funcionam da mesma forma, podemos controla-los, mas nunca totalmente. Talvez haja uma conexão entre todos os seres humanos. Você, meu velho amigo, pode aparecer nos meus sonhos sem ser convidado.

– Se houvesse uma conexão acho que Késsia se lembraria de estar com você já que sonha com ela tão insistentemente.

– E talvez ela se lembre. Não falo de uma lembrança clara como se tivéssemos marcado um encontro em um sonho, mas creio que uma parte inconsciente dela viaja comigo para o nosso futuro. Então, mesmo sem vê-la há meses, tenho certeza de que se nos encontrássemos ela teria a sensação de que me vira ontem, mais tarde pensaria que encontrou apenas alguém parecido. Portanto a Késsia que encontro todas as noites não é uma invenção.

Minha cabeça doía e, não importava o que acontecesse, eu não pretendia sonhar naquela noite. Tentei mudar de assunto.

– Já estamos aqui há algum tempo e não pedimos nada. Você quer uma cerveja? – Eu fiz um sinal para o garçom. Artur não me deu atenção e continuou falando.

– O único problema dos sonhos lúcidos é que não conseguimos mantê-los por muito tempo, mas felizmente eu e um amigo estudioso dos sonhos conseguimos resolver este problema. – Ele colocou sobre a mesa um pequeno frasco contendo um líquido cinzento e espesso.

– Essa é a droga que tem usado para conseguir falar todos esses absurdos?

– Chamo este líquido de felicidade? Quando o bebo consigo manter os sonhos lúcidos por horas. Quer um frasco? O primeiro é grátis.

– Vocês vendem essa coisa?

– É claro. O número de interessados cresce a cada dia. Por que iriamos privar as pessoas do prazer da verdadeira felicidade?

– Os efeitos colaterais dessa porcaria foram considerados?

– Eu o tomo há quatro meses e nunca tive nenhum efeito colateral. Experimente.

– Eu não quero essa droga, gosto do meu mundo real.

– Gosta mesmo? Professor, o senhor está velho, já se aposentou, é viúvo e seus filhos cresceram. Já pensou que poderia criar novos dias gloriosos em seu mundo paralelo? E se continuar com estes pensamentos, logo ficará sozinho. A humanidade está adormecendo, professor. As pessoas estão desistindo desta “realidade” triste e frustrante. Talvez queiram acordar se este futuro que criam em suas mentes finalmente chegar, mas volto a repetir que ele não será tão bonito quanto parece, então para que acordar? Apenas para satisfazer as necessidades do corpo, é claro. A mente é livre, mas o corpo está preso nesta realidade cinza, então precisaremos alimentá-lo e hidratá-lo para depois voltar a dormir.

Talvez não fosse tão ruim experimentar. Peguei o frasco e o guardei no bolso. A cerveja chegou. Bebemos em silêncio.

– Preciso ir embora, professor. Bons sonhos.

– Igualmente.

Antes de sair peguei outra cerveja e a bebi pelo caminho. Na escuridão da noite confundi as ruas mal iluminadas que me levariam para casa. Acabei chegando a uma rua vazia razoavelmente distante do meu destino. Ali parei para pensar. Toda aquela conversa sobre sonhos estava me enlouquecendo, as ideias de Artur ameaçavam dominar minha mente.

Encarei com desejo a possibilidade de dormir e rever minha esposa, abraçar meus filhos ainda pequenos e reviver o vigor da juventude. E, se eu quisesse, podia fingir que tudo era muito mais do que mera imaginação; era uma realidade alternativa, bela e tentadora.

Sentei-me sob uma árvore e tomei em um só gole o líquido cinzento com o qual eu fora presenteado. O gosto era horrível, intoxicante, mas não tive muito tempo para reclamar. O sono veio, subitamente, antes que a consciência fosse apagada. Eu estava sonhado e tinha o controle.

A vida perfeita, idealizada e uma vez realizada retornou em um novo mundo para que eu pudesse sentir o gosto uma segunda vez. Meu corpo não era mais velho e cansado e eu podia mover-me com incrível agilidade, sem dores, sem tonturas. Meus filhos corriam em polvorosa por minha antiga casa e, minha mulher, em desespero, tentava acalmá-los. Perto da entrada principal eu observava tudo com um sentimento de deliciosa nostalgia. Era um dia bonito e podíamos sair para dar uma volta.

– Cheguei mais cedo – eu disse e todos vieram me abraçar.

Artur tinha razão: são as emoções que tornam tudo real, e a alegria que me consumia não podia ser mais viva e vibrante. Eu seria feliz, pelo menos até o próximo despertar.

J. C. Gonçalves

 Imagem retirada do site: fundospaisagens.com

Os Sete Últimos Meses de Anne Frank

Os Sete Últimos Meses de Anne Frank

Desde que li O diário de Anne Frank me tornei quase obcecado pela época da segunda Guerra Mundial. Então sempre estive em buscas de todas as informações possíveis sobre este período negro de nossa História. Então um dia, passeando por uma livraria, me deparei com a obra de Willy Linder. É claro que comprei sem pensar, ansioso como estava diante da possibilidade de descobrir mais sobre a adorável Anne Frank e o holocausto.

O livro promete em sua sinopse trazer histórias de seis mulheres que conviveram com Anne Frank em seus últimos meses e que, milagrosamente, sobreviveram aos campos de concentração. A obra cumpre o que promete, mas não como eu esperava.

Desde o início pensei que Anne Frank seria a personagem principal do livro, seus últimos pensamentos seriam transmitidos ao mundo através de amizades que tivera nos campos de concentração, porém não demorei a descobrir que as sobreviventes tiveram pouco contanto com Anne Frank e, na verdade, elas estavam muito mais interessadas em falar sobre suas próprias experiências e, antes da publicação de seu diário, a pequena Anne era só mais uma vítima dos nazistas e ninguém prestava atenção especial nela.

Então essas mulheres apenas relatam curtas conversas com Anne ou dizem tê-la visto triste e abatida ao lado da mãe e da irmã.

Mesmo assim os primeiros relatos são muito interessantes e podemos sentir um pouquinho do horror que aquelas mulheres viveram. Mas então o livro cai em seu segundo erro: seis relatos são um exagero já que as histórias são todas parecidas e, depois da terceira, você começa a ficar realmente cansado de tudo aquilo. Todas as mulheres falam sobre as condições de higiene precária, o medo de ir para as câmaras de gás, a fome, a superlotação dos campos, as doenças e tantas outras coisas horríveis com as quais os nazistas tentavam fazer os judeus perderem sua condição humana.

A pequena Anne Frank morreu de tifo e foi jogada em uma cova qualquer com centenas de outros, mas felizmente seus escritos sobreviveram para que todos tivessem a sorte de conhecê-la.

J.C. Gonçalves

Edições Exclusivas da Tag

Edições Exclusivas da Tag

Já falei antes que me tornei membro do clube de livros “Tag Experiências literárias”. Este ano eles estão se dedicando a edições exclusivas e eu quero mostrar a vocês as três primeiras obras do ano.

Janeiro: Vida e proezas de Aléxis Zorbas de Nikos Kazantzákis.

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Fevereiro: O Xará de Jhumpa Lahiri

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Março: A câmara Sangrenta de Angela Carter

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Eu pretendia falar sobre estes livros  quando estivesse pronto para escrever uma resenha, mas, nos últimos meses, acho que regredi de leitor para colecionador de livros. A falta de tempo e o cansaço estão me afastando daquilo que mais amo na vida, porém dias melhores virão.

Não posso falar sobre o conteúdo dos livros, mas as edições em sim são de encher os olhos, muito caprichadas e com total atenção aos detalhes. Se já não tenho tempo para ler, pelo mesmo tenho uma estante cada vez mais bonita.

 

J. C. Gonçalves

 

O Louco

O Louco

Raul conferiu o relógio cinco vezes em dez minutos fazendo sua filha imaginar que ele aguardava ansiosamente por um compromisso importante. Mas ela o conhecia muito bem e sabia que um idoso doente e sem amigos não devia estar tão preocupado com o horário.

– Por acaso, o senhor vai sair?

– Gosto de caminhar às terças-feiras.

– Mas a essa hora?

– Acabou de anoitecer, o clima está bom e a cidade é muito segura.

– Eu não posso deixa-lo ir.

– Eu sou o pai por aqui – disse ele com bom humor, depois apanhou um velho lampião e saiu depressa.

Raul amava a companhia da filha, mas apenas quando ela aparecia para uma visita ocasional. Porém já fazia cinco dias que ela viera para ficar, tudo porque ele se machucou em uma escada e a família decidiu que alguém precisava cuidar dele.

– Não é á toa que dizem que ser velho é como voltar a ser criança – disse ele consolando-se.  – Aposto que ela vai querer me mandar pra cama antes das nove.

Ele passou por três ruas iluminadas e viu rostos conhecidos. A quarta rua em que entrou era menor e mais silenciosa e, após seus quinhentos metros iniciais, mergulhava na escuridão. Raul caminhou depressa, o coração acelerado, a expectativa de chegar logo.

A última construção da rua era uma escola, ou pelo menos fora em seus tempos áureos. Agora estava abandonada e em ruínas. A tinta das paredes perdera o brilho, as janelas estavam quebradas e parte do telhado desabara. Um mato rasteiro avançava vagarosamente em volta dos três pavilhões de salas. O portão estava retorcido e entreaberto.

Raul parou e olhou para o lugar com respeito e amor. Passara a maior parte da vida ali; estudou durante a infância e, quando adulto, tornou-se zelador. Foi o emprego ao qual se dedicou por quarenta anos, até o triste dia em que a escola mudou-se para um prédio maior e decidiram aposentar os funcionários antigos. O prédio velho foi vendido para uma empresa que pretendia construir uma grande fábrica, mas nada acontecera ainda e a escola permanecia de pé guardando milhões de lembranças em suas paredes sujas.

Devagar ele cruzou o portão, desviou-se de uma pilha de entulhos e passou diante de algumas salas. As portas haviam sido arrancadas e era possível ver algumas mesas que foram deixadas durante a mudança. Um velho livro estava caído em um canto.

Era uma visão triste, fantasmagórica, o oposto de quando o prédio estava cheio de crianças correndo e brincando. Ninguém gostava de ir ali; alguns mais medrosos evitavam até passar pela rua. Esses passeios noturnos também contribuíram para que a filha de Raul viesse cuidar dele. Algum vizinho cuidadoso contara a ela o que o pai estava fazendo. E o que pensariam de um senhor carregando um lampião durante caminhadas noturnas para visitar uma escola abandonada?

Em sua primeira visita ele foi mais discreto e trouxe apenas uma pequena lanterna que podia guardar no bolso, mas acabou tropeçando e deixando-a cair, então no passeio seguinte não encontrou nada além de um lampião para iluminar seu caminho. E era justamente o lampião, ou sua mente confusa, que fazia as coisas acontecerem.

Raul chegou ao pátio. Estava vazio, exceto por uma única mesa empenada deixada perto da cozinha. Ele parou diante dela e apoiou o lampião para descansar o braço. Depois o acendeu com um isqueiro. A chama começou pequenina e tímida e cresceu sem pressa, mas quando atingiu sua força máxima foi possível sentir o cheiro de magia no ar. Raul virou-se para assistir ao espetáculo uma vez mais.

O vento soprou e, delicadamente, levou consigo a poeira e o entulho, livrou as paredes da sujeira e arrancou pela raiz o mato que atrapalhava o caminho. Em uma segunda rajada poderosa trouxe de volta portas, janelas e mesas, os livros levados embora voaram para a biblioteca. Uma terceira rajada trouxe o sol para o horizonte, seu brilho dourado espantou as estrelas e a lua e o céu pintou-se de azul. Pássaros cantaram para celebrar o início de uma manhã de primavera.

Raul sentiu-se animado a abandonar a aposentadoria. O mesmo ar fresco que trouxera a escola de volta à vida parecia ter rejuvenescido seu corpo. Era maravilhoso, tudo voltara ao lugar onde estivera há dez anos.

E o sinal tocou. As crianças entraram correndo, eufóricas, bagunceiras, falando ao mesmo tempo. Raul ainda conseguia lembrar-se do nome de todas e as cumprimentava enquanto passavam por ele como um furacão.

Uma garotinha parou ao seu lado.

 – Tio Raul, por que não está no portão? Os meninos da quarta série estão empurrando todo mundo.

– Eu já vou ver isso, pequena. Obrigada.

Fazia parte de suas obrigações receber as crianças e manter a ordem durante a entrada. Porém, quando chegou a portão, a maioria dos alunos já havia passado, apenas os menores continuavam entrando depois de evitar a confusão inicial.

– Bom dia, tio – disse uma menina.

– Olá, Amanda.

Um garotinho foi o último a entrar, ele carregava uma mochila quase do seu tamanho e parecia cochilar enquanto andava.

– Eu odeio acordar cedo, tio.

– Ora Mateus, deixe essa preguiça no portão porque o dia já amanheceu há algumas horas.

Quando todas as crianças chegaram às suas classes tudo ficou quieto, exceto por conversas eventuais que eram logo contidas pelos professores. Raul trancou o portão e foi cuidar do jardim. Mais tarde voltou ao pátio com a missão de apressar qualquer criança que estivesse demorando demais para voltar à sala depois de beber água e ir ao banheiro. Sobre a mesa o lampião permanecia aceso.

Chegou a hora do recreio. Raul juntou-se a toda a agitação e alegria e comeu com as crianças.

No retorno para as aulas elas não se comportaram tão bem, pois já estavam ansiosas para ir embora. Os professore sofriam para acalmar os pequenos.

O último sinal foi seguido por um novo furacão de crianças agitadas e, então, a escola ficou vazia e silenciosa. Somente quatro crianças decidiram ficar um pouco mais; sentados no pátio eles conversavam.

Era o fim do seu turno; Raul pegou seu lampião e despediu-se das crianças. Contudo, desta vez, algo diferente e inesperado aconteceu.

As máquinas chegaram, sem avisar. Quatro grandes tratores aproximaram-se pelos cantos. Os donos do terreno finalmente vieram exercer seu direito de derrubar a escola e construir algo novo.

As crianças se assustaram e cercaram Raul em busca de proteção. Ele estava tão assustado quanto elas, havia temido aquele momento por anos, porém as promessas sobre o projeto de uma nova fábrica foram se apagando aos poucos e ninguém esperava mais que fosse acontecer.

– Vamos embora, crianças.

Eles deram-se as mãos e correram.

Os tratores derrubaram o muro e avançaram contra os pavilhões fazendo as telhas caírem e rachando as paredes. Raul pedia que eles parassem porque havia crianças ali, mas o barulho, os escombros e a poeira impediam que ele fosse visto ou ouvido.

No fim conseguiu guiar as crianças pelos destroços do muro. A rua tranquila trouxe-lhes segurança enquanto a escola desaparecia em uma nuvem de poeira.

– Por que eles estão derrubando a nossa escola? – perguntou uma menina, chorando.

– Eu não sei. É melhor irmos para longe daqui.

Em uma caminhada triste Raul chegou à sua casa. Ele entrou com cuidado e pediu que as crianças não fizessem barulho. A filha estava dormindo e ele sentou-se em uma poltrona começando a sentir muito sono. Colocou o lampião sobre a mesa.

As crianças sentaram-se no chão.

– Aonde vamos estudar agora?

– Eles construíram uma nova escola. É maior e mais bonita.

As crianças animaram-se. Raul gostava de tê-las ali, porém a calmaria depois do perigo o fez perceber que se assustara sem motivo, não devia ter permitido que os pequenos vissem sua escola ruir; sabia como tirá-los daquele tempo ao qual não pertenciam mais.

Ele apagou o lampião. As crianças desapareceram e a noite voltou a reinar.

Raul adormeceu pensando que a escola iria se reerguer em sua próxima visita, mas se isso não acontecesse, ele nem precisaria mais sair de casa, pois teria a companhia de suas amadas crianças sempre que acendesse o lampião. Não se importava se estivesse enlouquecendo.

                                                                J.C. Gonçalves

Momento Nostalgia

Momento Nostalgia

Sabe o que deu vontade de fazer hoje? Contar uma travessura da época da escola. Uma coisa simples, só para me esquivar dos problemas por um minuto e relembrar um tempo em que tudo era mais fácil e mais feliz.

A história que vou dividir com você já devia ter sido enterrada pelo tempo, mas, penso eu, uma de minhas qualidades é ter uma boa memória, por isso posso reviver com clareza as duas semanas iniciais da primeira série.

De repente me vi em uma sala com crianças que eu não conhecia. Nenhum dos meus colegas do ano anterior, dos quais eu gostava bastante, acompanhou-me nesta nova fase. Ainda muito apegado aos meus velhos amigos, não quis me enturmar com os novos. E o resultado deste isolamento proposital foi um pouco de solidão durante os recreios em que eu ficava apenas assistindo as outras crianças brincando.

Então, sozinho e entediado, comecei uma brincadeira que não precisava partilhar: jogar pedras.

Acalme-se, eu não era louco, eu acho. E o objetivo dessa brincadeira boba não era ferir ninguém, apenas incomodar. As pedras eram minúsculas e toda a graça consistia em atirá-las, colocar as mãos nos bolsos e ficar olhando a vítima dando voltas tentando entender o que acontecera. E tudo era repetido até deixar a pessoa desesperada. O meu eu de sete anos se divertia muito com isso.

Felizmente não demorei a perceber que os novos colegas eram legais. Acho que na metade da segunda semana, na hora do recreio, eu já estava em um grupo com cinco ou seis garotos. Contei a eles o que fazia para me divertir. Todos adoraram a ideia e quiseram participar. Foi aí que a catástrofe começou.

Acho que não expliquei a brincadeira direito ou então meus amigos mudaram as regras sem falarem nada comigo. O fato é que pedrinhas perigosamente grandes começaram a voar. Eu juro que falei para eles pararem; que não era daquele jeito, mas eles continuaram e nem se esforçaram muito para disfarçar.  Quando acertavam as meninas elas corriam gritando, mas quando acertavam os meninos eles jogavam de volta. Virou uma guerra incontrolável. Eu só conseguia pensar que se uma daquelas pedras acertasse a testa de alguém faria crescer um belo galo.

O sinal que encerrou o recreio serviu como um acordo de trégua. Eu caminhei para o pátio a fim de me juntar à fila da minha classe, foi então que uma das garotas da turma chamada Thaís aproximou-se chorando. Notei que um dos olhos dela estava mais vermelho do que o outro.

 – Você acertou uma pedra no meu olho, eu vou contar pra tia.

– Não fui eu. Eu juro. Não fui eu.

Mesmo que não fosse eu, sei que merecia metade da culpa por ter começado aquela brincadeira idiota, mas continuei jurando inocência, disse que nunca havia jogado uma pedra em alguém e nem sabia fazer isso. Se ela realmente contasse para a professora seria a minha ruína; tia Vânia já me considerava um aluno brilhante e eu até conseguia imaginar sua cara de decepção. Pior seria minha mãe que ficaria à minha espera na porta de casa com um chinelo na mão.

– Que história é essa de jogar pedras?

Eu voltei pra sala suando frio e fiquei o resto da aula olhando de Thaís para a professora aguardando o momento em que elas conversariam. Mas a aula chegou ao fim e nada aconteceu. Talvez Thaís estivesse convencida de minha inocência.  Suspirei tranquilo ligeiramente orgulhoso por ter escapado daquela enrascada.

E no dia seguinte eu estava outra vez parado no pátio com a minha turma esperando que a professora nos levasse para a classe. E, subitamente, como um monstro assustador e abominável, o diretor surgiu e abordou um garoto à minha frente.

– É você que está jogando pedras?

Acho que comecei a congelar antes de conseguir fugir sorrateiramente, mas nem teria dado tempo já que o garoto acusado foi logo apontando para mim.

– Foi ele aí – falou o traidor muito satisfeito como se fosse um bom menino que sempre segue as regras. Você nem acreditaria que no dia anterior ele estava jogando pedras do tamanho de bolinhas de tênis de mesa.

Agora eu estava prestes a fazer xixi ou desmaiar. Minha boca ficou tão seca que eu nem conseguiria falar caso conseguisse pensar em algo para dizer. Nem podia chorar.

O diretor se virou e lentamente abaixou-se até que os nossos rostos ficassem da mesma altura.

Deus do céu! Eu ia ser expulso.

Eu nunca tinha falado com o diretor e, antes de me mijar, descobri que ele era bastante compreensivo. Nada de broncas, castigos ou expulsão. Tudo o que ele fez foi falar em um tom dócil e agradável que eu não devia mais fazer aquilo, que eu poderia me machucar ou machucar os outros e me fez prometer que não faria outras coisas do tipo. Então ele se levantou e foi embora.

Pude respirar tranquilamente outra vez e nunca mais atirei uma pedra.

Escolhi essa história para escrever hoje porque na semana passada encontrei a Thaís. Ela estava trabalhando em uma farmácia e eu não resisti ao desejo de perguntar:

– Seu nome é Thaís, não é?

Fiquei feliz por ela também se lembrar de mim, mas os motivos não eram bons.

– Eu sei quem você é. Você acertou uma pedra no meu olho na primeira série.

– Desculpe – disse eu, constrangido.

– Então foi você mesmo! – ela sorriu muito contente por arrancar minha confissão quinze anos depois.