Sei lá

Sei lá

Sei lá, não pensei que voltaria a estudar algum dia. Sentar-me outra vez em uma sala de aula e encarar professores e colegas não me passou pela cabeça durante muitos anos. Havia me transformado em um autodidata e aprendia sozinho sobre todos os temas que eram do meu interesse.

Mas havia em mim um sonho adormecido. Durante todo o ensino fundamental planejei me formar em Letras. Acho que cismei com este curso porque queria ser escritor e era atraído pela ideia de ter um maior domínio da língua.

Porém escrever tornou-se uma atividade que eu praticava cada vez mais raramente. Deixei para depois o meu sonho de publicar, talvez para um momento em que tivesse mais tempo e dinheiro, provavelmente quando me aposentasse.

Entretanto a oportunidade de ir à universidade surgiu bem antes disso. Matriculei-me, comprei materiais e aguardei o início das aulas sem muita expectativa e com um pouco de receio. Será que eu conseguiria me adaptar? Aprenderia a ser aluno outra vez? Suportaria a dura rotina de trabalho e estudo?

O primeiro dia de aula chegou. Inventei muitas desculpas para mim mesmo para não ir, mas nenhuma me convenceu. Então, após todos esses anos, entrei outra vez em uma sala de aula.

Até agora estou surpreso. Encontrei um grupo de pessoas acolhedor e interessados nos mesmo assuntos que eu, e todos são muito inteligentes  e participativos. Os professores são ótimos e todas os assuntos discutidos até aqui me fizeram pensar por que não comecei o curso antes.

Mas é claro que foram apenas alguns dias e ainda estou receoso, mas cheio de esperanças.

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Caçando Aviões

Quando eu via o rastro branco que os aviões deixavam pensava que eles voavam tão alto que arranhavam o céu.

Que aventura, eu pensava, ir tão alto, tão longe. Será que dava frio na barriga?

Foi minha irmã quem despertou meu interesse pelos aviões. Sempre que via algum ela apontava.

– Você não fica se perguntando quem são as pessoas que estão lá dentro e para onde estão indo? Dá uma vontade danada de viajar junto.

E eu comecei a sentir o mesmo. Era tão fácil desprender-se do chão, da realidade, e eu voava com os aviões. Lá em cima tudo era belo, tudo era novo. Olhar o mundo de cima era como conquistá-lo, era ser livre, sem trânsito, sem estradas ruins, sem obstáculos. Era possível chegar a qualquer lugar.

Ás vezes eu pensava que todas as pessoas lá no alto eram empresárias e usavam ternos. Eu também imaginava famílias felizes saindo de férias.

Meus aviões sempre iam para o México, era onde eu esperava encontrar todos os artistas que mexiam com minha imaginação. Eu gostava de Chaves, de Carrossel, de Cúmplices de um resgate. Minha irmã também gostava e talvez fosse por isso que vivíamos com a cabeça nas nuvens.

Às tardes, depois da aula, nós nos sentávamos em uma rampa nos fundos da casa e olhávamos para o céu; acompanhávamos os aviões até que desaparecem no horizonte. Acho que foram os meus primeiros encontros com a felicidade. Não há nada como se sentir leve e sonhar; acreditar que se pode desaparecer no horizonte como os aviões.

– Um dia vamos voar em um desses – minha irmã dizia.

– É claro que vamos. – Eu tinha medo, mas sabia que minha curiosidade seria maior.

Feliz Aniversário

Eu te disse que hoje é o meu aniversário?

Não, é claro que não, se eu mesmo tentava esquecer.

Mas, inevitavelmente, lembrei-me. Tentei dormir cedo na noite anterior, mas logo percebi que a insônia me pegara. As horas seriam longas e cheias de pensamentos sombrios. Em algum momento consultei o relógio para saber quanto tempo mais precisaria aguentar ali deitado.

00h06min.

Já era outro dia. Era meu aniversário.

Uma imagem antiga surgiu, centenas de vezes relembrada: o dia em que completei oito anos. Como acordei feliz naquela manhã. Sorridente corri para minha gangorra sob os primeiros raios acolhedores do sol e pensei em como estava crescido. Oito anos, nossa, parecia um número enorme, imponente e eu estava orgulhoso. Analisei tudo o que tinha feito na vida e o que ainda faria. Meus sonhos estavam um ano mais próximos agora.

Alguém já havia me dito que eu poderia alcançar tudo o que eu quisesse. É saudável dizer isso para a as crianças, mas será que existe um momento certo para contar a elas que é mentira? Ou será que é melhor deixa-las descobrir sozinhas?

  É verdade, não é? Nem sempre nossos sonhos se tornam reais, por mais empenhados que possamos ser.

E é difícil aceitar a derrota; não sou um bom perdedor. Como posso olhar para o meu eu de oito anos e dizer: Ei, sabe tudo isso que você sonha? Não vai acontecer, nós perdemos.

Tudo bem, esqueça o que não alcançou, busque outras coisas. Tentei fazer isso, mas pensar em outros sonhos me enche de angústia. É melhor não ter sonho nenhum, viva um dia de cada vez e deixe a correnteza levar você. Não importa o que aconteça, não olhe para o amanhã, não crie, não planeje, isso traz decepção. Tornei-me um especialista neste truque, durante meses vivi um único e repetitivo dia, é a minha forma de enfrentar o insuportável fardo de existir.

Mas então vem o aniversário e estraga tudo. Ele me lembra que o tempo está passando e que eu ainda estou parado no mesmo lugar tentando enganar as horas reiniciando o relógio a cada manhã. O pior de tudo é que os sonhos ainda estão ali e me trazem vislumbres de uma felicidade nunca alcançada. Vejo-me caído no meio de uma escada olhando para o topo inalcançável onde as pessoas riem e conversam.

Será que alguém esticou a perna para me fazer tropeçar ou eu caí sozinho? Não me lembro. Sinto um grande desejo de tentar continuar subindo. Ocorreu-me a ideia de que talvez eu não chegue ao topo, mas o degrau seguinte já pode ser um lugar melhor.

Acabei dormindo. Acordei na hora habitual e tive uma grande surpresa ao abrir a janela: um arco-íris marcava o céu cinzento, tão bonito, um espetáculo. Há quantos anos eu não via um arco-íris? Não sei o motivo, mas aquela visão trouxe-me muitas sensações boas quase como seu eu pudesse realmente encontrar um pote de ouro em seu fim.

Era um presente da natureza para mim. Sumiu depressa, mas os poucos minutos em que se exibiu foram o suficiente para mostrar-me que aquele dia não seria como os outros.

 

                                                      J.C. Gonçalves

 

Um dos Cem Melhores Marketings de Todos os Tempos

Um dos Cem Melhores Marketings de Todos os Tempos

Hoje vou falar um pouco sobre “ A Saga do Mago”. Já adianto que foi um livro sobre o qual eu tinha grande expectativa, mas transformou-se em decepção.

A obra de Raymond E. Feist ganhou certa popularidade no Brasil graças a um trabalho editorial e divulgação muito bem feitos. Lindas capas, um belo mapa para acompanhar e a propaganda orgulhosamente exibida: um dos cem melhores livros de todos os tempos, BBC.

A capa lhe convida a conhecer a obra-prima da fantasia épica, mas bastam poucas páginas de leitura para perceber que não há nada de épico ali. A história é rasa e os personagens são completamente planos, nada convence muito no mundo de Midkemia.

Nos primeiros capítulos Feist descreve uma aventura subterrânea que parece um esboço muito mal feito das travessias das Minas de Moria do Livro O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien.  Não tenho nada contra o desejo do autor de escrever algo parecido, mas este é o momento em que a comparação entre os dois livros se torna inevitável e descobrimos que a qualidade é infinitamente distinta. Em seguida o livro ganha seu próprio rumo e sempre existe a expectativa de que tudo melhore.

Mas não. A sensação geral que a obra me passou é que o autor juntou várias partes de histórias diferentes. Os personagens e, principalmente, os cenários não conseguem se juntar para formar um mundo sólido.

A passagem do tempo também incomoda bastante, meses e anos passam com um virar de páginas fazendo a história mergulhar em uma monotonia entediante. Este mal atingiu o personagem principal: o jovem Pug é o nosso aprendiz de Mago e, por alguns momentos, a possibilidade de ele passar por um longo treinamento anima a história, mas então ele é sequestrado e reaparece no livro seguinte anos depois já adulto e transformado em um grande Mago.

A escrita de Raymond não ajuda, seu texto é óbvio e completamente sem inspiração, nem mesmo quando havia batalhas ele conseguia fazer com que eu realmente me interessasse.

“Mago; Aprendiz” foi o pior livro que já li, pelo menos até que eu lesse “Mago; Mestre”. Como nada melhorou no segundo livro, eu finalmente desisti da série.

E você? Já leu? Espero que tenha uma experiência mais satisfatória para contar.

O Adormecer da Humanidade

O Adormecer da Humanidade

A mesa no fundo do bar ficava perto da janela e ligeiramente afastada das outras. Era um lugar aconchegante para beber sem ser incomodado ou ter uma conversa particular. Eu não vi quando o meu convidado entrou e quase não o reconheci quando ele parou diante de mim. Era um homem sorridente que transmitia confiança e uma felicidade sincera. Ele fora meu aluno. Era mais uma mente brilhante que se perdera na loucura do mundo.

– Artur, você está ótimo. Suponho que tenha superado as angústias do passado.

Ele apertou minha mão e sentou-se.

– Professor, desde que me casei com Késsia posso dizer que tenho uma vida perfeita.

Késsia fora uma paixão juvenil não correspondida que fizera meu brilhante aluno mergulhar em um deplorável estado de solidão e baixa autoestima.

– Até onde eu sei Késsia Silva se casou com Leandro Souza há dois anos e eles têm um filho.

– Isto é verdade aqui e agora, mas pode não ser em outro lugar ou no futuro.

– O que quer dizer?

– Tudo o que sei é que há mais de uma realidade, por isso não duvide quando eu digo que Késsia é minha esposa.

– Artur, será que você pode ser um pouco mais claro?

– Nosso casamento aconteceu bem aqui. – Com o dedo indicador ele tocou a cabeça.

– Você imaginou se casar com ela? – eu perguntei temendo a resposta.

– Não, eu sonhei.

– Sonhar e imaginar não seriam, digamos, a mesma coisa?

– Claro que não. O sonho é a realização do que foi imaginado. É como tirar um projeto do papel, entende?

– Não entendo. Você quer dizer que sonhou com Késsia e, por isso está feliz? Pensei que já tivesse esquecido esta garota.

– É quase isso, mas acho que o verbo sonhar não expressa exatamente o que aconteceu. Tudo foi real.

– Você acha que teve uma premonição? Késsia irá se separar do marido e se casar com você?

– Esta é uma possibilidade. Mas não aconteceu exatamente desta forma. Não foi como ver o futuro, foi como viajar até lá e viver o futuro.

Eu o olhei longamente esperando que ele explodisse em uma gargalhada mostrando que tudo era brincadeira, porém, Artur continuou a divagar:

– Estamos pretendendo fazer uma viagem, você tem alguma sugestão?

– Você e Késsia? Quando?

– Assim que eu adormecer.

– Mas como pode saber que irá fazer a sua viagem no tempo?

– Não diga viagem no tempo com este tom zombeteiro. E sim, eu sei onde irei estar quando fechar os olhos. Você já ouviu falar em sonhos lúcidos? Descobri uma maneira bem eficaz de provocá-los.

– Você provoca sonhos lúcidos para viver ao lado de uma mulher que não te quis? Não faça isso com você rapaz, é doentio.

– Eu estive doente, mas agora estou ótimo. No início também tive dificuldades para aceitar estas viagens ao futuro, mas descobri o quanto é maravilhoso.

– Veja bem, isto não pode ser o futuro, somos nós que escolhemos o roteiro dos sonhos lúcidos.

– Sim, mas quem sabe esta seja a forma de escrever o futuro, talvez os anos que estão por vir sejam um livro em branco que não precisamos esperar para preencher.

– Ninguém escreve o futuro dormindo.

– Quem sabe então seja um universo paralelo em que podemos criar nossa própria história?

Ele falava com inacreditável seriedade e convicção. O que Késsia pensaria se soubesse que os sentimentos que Artur nutria por ela o levaram à loucura? Eu quis acreditar uma última vez que ele zombava de mim, por isso, falei:

– O que as garotas dizem quando você as convida para sair e começa a falar sobre viagens ao futuro e universos paralelos?

– Eu não convido nenhuma garota para sair, sou um homem casado.

Eu me irritei.

– Pelo amor de Deus, pare com isso. Você está louco, precisa de um psiquiatra.

– Viver em outra realidade não me torna louco.

– Mas não existe outra realidade, olhe ao seu redor, esta é a única realidade que existe.

Artur olhou para os quatro cantos do bar de forma debochada.

– E o que torna isso real?

Eu dei alguns socos suaves na mesa.

– Olhe como é sólido, você pode tocar, sentir a textura, o cheiro. Se você vier correndo e tropeçar, pode muito bem rachar a cabeça na quina desta mesa. Mas isso não é possível nos sonhos, ou é?

– Tirando a parte de rachar a cabeça, tudo é possível. O cérebro reage ao mundo em que vivemos fazendo com que sintamos raiva, amor, ansiedade, medo. Se você se concentrar nas imagens certas enquanto está dormindo o cérebro reagirá da mesma forma, é ele que torna tudo real.

– Como você pode chamar de realidade as imagens escuras e borradas de um sonho?

– Por acaso é a luz que torna tudo real? Então o que me diz de um cego? Este mundo não é real par ele?

Não encontrei um bom argumento para rebater aquela nova face da loucura.

– Não é a visão…

– Exatamente, são as emoções. O prazer que sinto ao beijar Késsia dormindo não seria maior se fizesse isso acordado?

– Como você sabe se nunca a beijou de verdade?

– Realmente eu nunca a beijei nesta realidade, mas agora sei que isto seria decepcionante. Por acaso já lhe ocorreu de você imaginar algo que está para acontecer e, quando realmente acontece, você percebe que em pensamento era bem melhor? E olhe que estou falando apenas de um pensamento, se você tivesse sonhado a decepção seria ainda maior. Tudo o que este mundo tem para nos oferecer é apenas um esboço do que realmente queremos.

– Então insinua que se pudesse se casar com Késsia aqui, agora, você ainda escolheria esta outra Késsia do futuro ou de outro universo?

– É claro.

– Você zomba da criação. Já pensou que tudo o que existe faz parte da imaginação de Deus? Mesmo assim você prefere se fechar em sua própria cabeça?

– Se você acha que vivemos na imaginação de Deus, então deve pensar que tudo aqui não é real.

– Eu não quis dizer isso. Deus imaginou e depois tornou real.

– E nós podemos fazer o mesmo em nossos sonhos.

– Não podemos. – Eu estava quase gritando. – Quando temos um sonho bom e acordamos de repente nos sentimos decepcionados por não ser real.

– Engano seu. Sentimo-nos tristes e decepcionados por acordar, então o que fazemos? Tentamos dormir outra vez para continuar sonhando. As pessoas querem continuar dormindo por que sabe que será melhor do que isso que você chama de realidade. Acredite meu amigo, dormindo você conseguirá se realizar e ser mais feliz do que seria aqui.

– Isso me parece apenas uma maneira de fugir da realidade, dos problemas, da vida. Pessoas fracas fariam isso.

Pensei que o insulto o faria refletir um pouco mais, mas Artur apenas sorriu sem se importar.

– Por que pensa que a vida deve ser difícil, cheia de dor e sofrimento? Acha que as pessoas querem isso? Por que viver assim se a felicidade nos espera em um mundo que se abre em nossa mente?

– Em longo prazo essa vida perfeita deve ficar bem chata. Precisamos enfrentar privações.

– Quem poderia se aborrecer em um mundo controlado por sua própria vontade. Se você quiser dificuldades pode inserir algumas de vez em quando.

Ele tinha respostas para tudo. Era admirável seu empenho em defender sua realidade alternativa.

– Mas você não pode negar que irá se sentir sozinho com o tempo. Afinal, você é o único habitante da sua realidade. Todas as pessoas inseridas neste futuro são apenas sombras suas. Sua amada Késsia, por exemplo, uma de suas características mais marcantes é sua personalidade forte. Mas em um mundo onde você é Deus ela não tem personalidade; a pobre moça diz o que você quer, faz o que você quer e sorri quando você deseja. Aposto que ela não consegue escolher nem as próprias roupas, ou talvez você prefira vê-la caminhando nua. O fato é que ela não é uma mulher, não é sua esposa, é apenas uma marionete.

Sua demora em retrucar me fez pensar que eu o havia acertado, mas ele estava apenas tomando fôlego para continuar com suas teorias absurdas.

– Isso não é verdade. Quantas vezes em nossos sonhos nos deparamos com pessoas que nunca vimos e as ouvimos dizer coisas que nunca passaram por nossa cabeça. Os sonhos lúcidos funcionam da mesma forma, podemos controla-los, mas nunca totalmente. Talvez haja uma conexão entre todos os seres humanos. Você, meu velho amigo, pode aparecer nos meus sonhos sem ser convidado.

– Se houvesse uma conexão acho que Késsia se lembraria de estar com você já que sonha com ela tão insistentemente.

– E talvez ela se lembre. Não falo de uma lembrança clara como se tivéssemos marcado um encontro em um sonho, mas creio que uma parte inconsciente dela viaja comigo para o nosso futuro. Então, mesmo sem vê-la há meses, tenho certeza de que se nos encontrássemos ela teria a sensação de que me vira ontem, mais tarde pensaria que encontrou apenas alguém parecido. Portanto a Késsia que encontro todas as noites não é uma invenção.

Minha cabeça doía e, não importava o que acontecesse, eu não pretendia sonhar naquela noite. Tentei mudar de assunto.

– Já estamos aqui há algum tempo e não pedimos nada. Você quer uma cerveja? – Eu fiz um sinal para o garçom. Artur não me deu atenção e continuou falando.

– O único problema dos sonhos lúcidos é que não conseguimos mantê-los por muito tempo, mas felizmente eu e um amigo estudioso dos sonhos conseguimos resolver este problema. – Ele colocou sobre a mesa um pequeno frasco contendo um líquido cinzento e espesso.

– Essa é a droga que tem usado para conseguir falar todos esses absurdos?

– Chamo este líquido de felicidade? Quando o bebo consigo manter os sonhos lúcidos por horas. Quer um frasco? O primeiro é grátis.

– Vocês vendem essa coisa?

– É claro. O número de interessados cresce a cada dia. Por que iriamos privar as pessoas do prazer da verdadeira felicidade?

– Os efeitos colaterais dessa porcaria foram considerados?

– Eu o tomo há quatro meses e nunca tive nenhum efeito colateral. Experimente.

– Eu não quero essa droga, gosto do meu mundo real.

– Gosta mesmo? Professor, o senhor está velho, já se aposentou, é viúvo e seus filhos cresceram. Já pensou que poderia criar novos dias gloriosos em seu mundo paralelo? E se continuar com estes pensamentos, logo ficará sozinho. A humanidade está adormecendo, professor. As pessoas estão desistindo desta “realidade” triste e frustrante. Talvez queiram acordar se este futuro que criam em suas mentes finalmente chegar, mas volto a repetir que ele não será tão bonito quanto parece, então para que acordar? Apenas para satisfazer as necessidades do corpo, é claro. A mente é livre, mas o corpo está preso nesta realidade cinza, então precisaremos alimentá-lo e hidratá-lo para depois voltar a dormir.

Talvez não fosse tão ruim experimentar. Peguei o frasco e o guardei no bolso. A cerveja chegou. Bebemos em silêncio.

– Preciso ir embora, professor. Bons sonhos.

– Igualmente.

Antes de sair peguei outra cerveja e a bebi pelo caminho. Na escuridão da noite confundi as ruas mal iluminadas que me levariam para casa. Acabei chegando a uma rua vazia razoavelmente distante do meu destino. Ali parei para pensar. Toda aquela conversa sobre sonhos estava me enlouquecendo, as ideias de Artur ameaçavam dominar minha mente.

Encarei com desejo a possibilidade de dormir e rever minha esposa, abraçar meus filhos ainda pequenos e reviver o vigor da juventude. E, se eu quisesse, podia fingir que tudo era muito mais do que mera imaginação; era uma realidade alternativa, bela e tentadora.

Sentei-me sob uma árvore e tomei em um só gole o líquido cinzento com o qual eu fora presenteado. O gosto era horrível, intoxicante, mas não tive muito tempo para reclamar. O sono veio, subitamente, antes que a consciência fosse apagada. Eu estava sonhado e tinha o controle.

A vida perfeita, idealizada e uma vez realizada retornou em um novo mundo para que eu pudesse sentir o gosto uma segunda vez. Meu corpo não era mais velho e cansado e eu podia mover-me com incrível agilidade, sem dores, sem tonturas. Meus filhos corriam em polvorosa por minha antiga casa e, minha mulher, em desespero, tentava acalmá-los. Perto da entrada principal eu observava tudo com um sentimento de deliciosa nostalgia. Era um dia bonito e podíamos sair para dar uma volta.

– Cheguei mais cedo – eu disse e todos vieram me abraçar.

Artur tinha razão: são as emoções que tornam tudo real, e a alegria que me consumia não podia ser mais viva e vibrante. Eu seria feliz, pelo menos até o próximo despertar.

J. C. Gonçalves

 Imagem retirada do site: fundospaisagens.com

Os Sete Últimos Meses de Anne Frank

Os Sete Últimos Meses de Anne Frank

Desde que li O diário de Anne Frank me tornei quase obcecado pela época da segunda Guerra Mundial. Então sempre estive em buscas de todas as informações possíveis sobre este período negro de nossa História. Então um dia, passeando por uma livraria, me deparei com a obra de Willy Linder. É claro que comprei sem pensar, ansioso como estava diante da possibilidade de descobrir mais sobre a adorável Anne Frank e o holocausto.

O livro promete em sua sinopse trazer histórias de seis mulheres que conviveram com Anne Frank em seus últimos meses e que, milagrosamente, sobreviveram aos campos de concentração. A obra cumpre o que promete, mas não como eu esperava.

Desde o início pensei que Anne Frank seria a personagem principal do livro, seus últimos pensamentos seriam transmitidos ao mundo através de amizades que tivera nos campos de concentração, porém não demorei a descobrir que as sobreviventes tiveram pouco contanto com Anne Frank e, na verdade, elas estavam muito mais interessadas em falar sobre suas próprias experiências e, antes da publicação de seu diário, a pequena Anne era só mais uma vítima dos nazistas e ninguém prestava atenção especial nela.

Então essas mulheres apenas relatam curtas conversas com Anne ou dizem tê-la visto triste e abatida ao lado da mãe e da irmã.

Mesmo assim os primeiros relatos são muito interessantes e podemos sentir um pouquinho do horror que aquelas mulheres viveram. Mas então o livro cai em seu segundo erro: seis relatos são um exagero já que as histórias são todas parecidas e, depois da terceira, você começa a ficar realmente cansado de tudo aquilo. Todas as mulheres falam sobre as condições de higiene precária, o medo de ir para as câmaras de gás, a fome, a superlotação dos campos, as doenças e tantas outras coisas horríveis com as quais os nazistas tentavam fazer os judeus perderem sua condição humana.

A pequena Anne Frank morreu de tifo e foi jogada em uma cova qualquer com centenas de outros, mas felizmente seus escritos sobreviveram para que todos tivessem a sorte de conhecê-la.

J.C. Gonçalves

Edições Exclusivas da Tag

Edições Exclusivas da Tag

Já falei antes que me tornei membro do clube de livros “Tag Experiências literárias”. Este ano eles estão se dedicando a edições exclusivas e eu quero mostrar a vocês as três primeiras obras do ano.

Janeiro: Vida e proezas de Aléxis Zorbas de Nikos Kazantzákis.

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Fevereiro: O Xará de Jhumpa Lahiri

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Março: A câmara Sangrenta de Angela Carter

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Eu pretendia falar sobre estes livros  quando estivesse pronto para escrever uma resenha, mas, nos últimos meses, acho que regredi de leitor para colecionador de livros. A falta de tempo e o cansaço estão me afastando daquilo que mais amo na vida, porém dias melhores virão.

Não posso falar sobre o conteúdo dos livros, mas as edições em sim são de encher os olhos, muito caprichadas e com total atenção aos detalhes. Se já não tenho tempo para ler, pelo mesmo tenho uma estante cada vez mais bonita.

 

J. C. Gonçalves